terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Canto para uma Lua despudoradamente linda!







Menina Lua,
Que me dá o mês,
Que me dá a mente,
Que me ensina as mensuras,
Que me mostra as mentiras,
Menina Lua,
Que me faz ver no sonho,
Que me faz correr o sangue,
Que me faz cio, semente e fonte,
Cobre-me com teu brilho
e re-nova-me!*


(*)Para ser cantado no primeiro dia da Lua Crescente

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A conversão doce e suja de São Francisco









O Pobrezinho de Assis contou, com suas próprias palavras, no seu Testamento como tinha se convertido à fé em Nosso Senhor Jesus Cristo:
           
         "Foi assim que o Senhor concedeu a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência: como eu estivesse em pecados, parecia-me sobremaneira amargo ver leprosos. E o própio Senhor me conduziu entre eles, e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo se me converteu em doçura de alma e de corpo; e, depois, demorei só um pouco e saí do mundo. E o Senhor me deu tão grande fé nas igrejas que simplesmente eu orava e dizia: Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas igrejas que há em todo o mundo, e vos bendizemos, porque, pela vossa santa cruz, remistes o mundo."


Escritos de São Francisco (Test 1-3), Petrópolis,RJ: Vozes, 2009. pp.173-174.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Yggdrasil - o ancestral da Árvore de Natal



Yggdrasil, 
o ancestral da Árvore de Natal, 
a árvore cósmica dos escandinavos






Despertada por Odin do seu sono profundo para revelar aos deuses os começos e o fim do mundo, a profetisa, a Völva, declara no poema Voluspâ:

“Lembro-me dos gigantes nascidos na aurora dos tempos, Daqueles que outrora me geraram.
Conheço nove mundos, nove domínios cobertos pela árvore do mundo:
Vanaheim, o mundo dos Vanir os deuses benevolentes; Asgard, o mundo dos Aesir os deuses guerreiros; Midgard, o mundo dos homens; Helheim, o mundo dos mortos; Ljusalfheim, o mundo dos elfos de luz; Svartalfheim, o mundo dos anões ou elfos escuros; Jotunheim, o mundo dos gigantes; Niflheim, o mundo de gelo eterno; Muspelheim, o mundo de fogo.
Sei que existe um freixo que se chama Yggdrasil, esta árvore sabiamente plantada cujas raízes afundam no âmago da Terra...
A copa da árvore vai até o céu e está envolta em brancos vapores de água, donde se desprendem gotas de orvalho que caem no vale.
Ele ergue-se eternamente verde por cima da fonte de Urd.
Odin prende seu cavalo ao tronco de Yggdrasil em volta do qual giram as constelações.
Perto de Yggdrasil encontra-se a fonte miraculosa Mîmir - a “meditação”, a “recordação” - onde Odim deixou um olho como penhor e para onde ele volta incessantemente a fim de restaurar e aumentar sua sabedoria.
É sempre nos mesmos lugares, perto de Yggdrasil, que se encontra a fonte Urd;
Os deuses aí reúnem diariamente o seu conselho e ministram a justiça.
Com a água desta fonte e hidromel, as deusas nornes (Urd “passado”, Verdandi “presente” e Skuld “futuro”) regam a árvore gigante todos os dias para que recobre juventude e vigor.
A cabra Heidrûn, a águia Hraelsveg, um veado e um esquilo empoleiram-se nos ramos de Yggdrasil e nas suas raízes acha-se a víbora Nidhög, que procura constantemente abatê-la.
A águia luta todos os dias com a víbora.
Quando o universo tremer até os alicerces, no cataclismo anunciado no Voluspâ e que porá fim ao mundo, Yggdrasil será sacudida muito fortemente, mas não tombará, a fim de instaurar um novo período paradisíaco”.


"O nascimento de qualquer criança
é sempre uma nova chance
de renovação da humanidade inteira"

Feliz Natal!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Duofel Plays The Beatles - Eleanor Rigby




Depois de se constituírem em patrimônio da cultura violonística nacional, esses dois loucos do Duofel resolveram gravar as músicas que tocavam nas festinhas da intimidade para seletos amigos. O resultado é algumas re-leituras que tem tudo para se tornarem clássicos de clássicos. Vejam onde se pode chegar com uma lixa de unha!




quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Depois da tempestade, um arco-íris envergonhado



Logo depois da tempestade que obrigou a megalópica multidão a parar e, reflexivamente, contemplar a lama e o caos, surgiu esse tímido arco-íris, tão fraquinho que só durou alguns segundos. Mas, meninos, eu vi (e fotografei)!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Diálogo entre Eva e Zaratustra: sobre verdades e árvores







Eva: – Amado Adão, aquela árvore que nos foi proibido tocar, a árvore do conhecimento do bem e do mal, não é nem foi funesta ao mundo. Ao contrário, seus frutos tem cor agradável à vista e são doces ao apetite. Não morreremos, teremos discernimento e seremos como deuses. Come o fruto que te ofereço e serás tão feliz como eu. (Gênesis 3: 5,6)

Zaratustra: – Fora, fora, ó verdades de olhar sombrio! Não quero ver em minhas montanhas acres verdades impacientes. Dourada de sorrisos, de mim se acerca hoje a verdade, adoçada de sol, bronzeada de amor – só uma verdade madura eu tiro da árvore. (Nietzsche. Ditirambos de Dioniso, 1888)


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Psicose - Black Sabbath, Heaven & Hell


Extasiado e em estado de graça, depois de assistir pela primeira vez essa maravilhosa banda feminina de rock, perguntei à baixista Chris Zuardi, porque elas tinham escolhido Black Sabbath para homenagear e se tornar um cover feminino. A resposta não poderia ser mais precisa e profunda: "Ah, foi o que deu mais química." Química, alquimia, feitiçaria, daquelas raras: para o bem e bem forte! Sempre desconfiei que o heavy rock clássico, de Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath, com suas ondulações, climas, percursos aleatórios e surpresas, tudo a serviço de um transe lento e êxtase crescente com finais apoteóticos, era uma linguagem feminina, enfim, era coisa de mulher. "Sabbath", então, não era uma festa sagrada das bruxas? Pois é isso que vejo quando assisto um show dessas lindas e poderosas bruxas, cada uma com sua marca própria que enriquece a poção mágica que elas nos servem: Priscila Alvarez na guitarra, Chris Zuardi, no baixo, Carla Afonso na bateria e Thammy Sillah no vocal, formam a Psicose, pra mim, sem dúvida, a melhor banda de rock de São Paulo.


domingo, 29 de novembro de 2009

Sonho Alquímico II - O celacanto







Um pescador joga sua rede no mar mais profundo e traz com ela à superfície um Celacanto vivo. O Celacanto não deveria existir, pois já é um fóssil de milhares de anos. O Celacanto não deveria existir, porque recusou-se a viver nas águas que lhe foram destinadas por Deus. O próprio Celacanto é o momento inicial de uma explosão de vida no universo, o momento especial em que um ser da água se tornou um híbrido e se tornou capaz caminhar na terra e respirar o ar. O Celacanto é o resultado da lenta coagulação das águas primordiais, do caos indiferenciado, do antes de tudo, do sem fundo. Um ser com faísca de vontade que libertou-se dos limites da existência líquida. A terra que pisou, o ar que respirou, ainda não era habitado pela chama da vida. O Celacanto rompeu os limites traçados para ele pelo Criador. Não tinha pés, mas membros que se arrastavam, não tinha pulmões, mas peitos que arfavam. Mas isso foi o bastante, pois o Celacanto abriu sua boca e falou: eu ouvi as palavras de Deus no Gênesis e povoei a terra de seres terrestres e os ares de seres alados.


O Criador do alto dos céus mantém a criação em revolução

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sonho Alquímico I - O cão e o mar





Um barco de pesca singra o mar num dia com brisa suave e ensolarado. De repente, o barco faz a volta, desliga o motor e os homens da família que estava no barco vestem apressados o equipamento e mergulham. Comenta-se com apreensão que um cão caiu no mar e afundou. Passam-se momentos de angústia e a busca é infrutífera. Decidem voltar à terra firme. No caminho, após desoladas horas de viagem, avistam a cabeça do cão desaparecido, estranhamente parada, acima da superfície da água. Ao se aproximarem do cão, o barco toca num banco de areia e todos percebem que o cão está de pé, com os pés apoiados no fundo do mar que se eleva perto da superfície justamente nesse ponto. Todos ficam felizes e resgatam o cão para bordo. O cão é muito escuro, quase preto, de estrutura grande e muito forte. A dona do cão, abraça-o e diz que ele se chama Fundamentos, que ele afundou, chegou ao fundo do mar e caminhou por baixo d’água até o ponto onde foi encontrado. Diz, ainda, que só Fundamentos poderia ter feito isso!


"O avançar é um retroceder ao fundamento, ao originário e verdadeiro."

Hegel, na Ciência da Lógica.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

SMASH BROS. - Sonic 3 - The Boss Theme

SMASH BROS. - Sonic 3 - The Boss Theme

Sempre adorei trilhas sonoras. Elas são como um extrato concentrado, uma pequena biblioteca de trechos clássicos e empolgantes de vários estilos de música que fizeram a cabeça de gerações passadas. Grandes mestres como Ennio Morricone, Lalo Shiffrin, Henry Mancini emprestaram sua arte às trilhas sonoras. A molecada de hoje tem descoberto esse tesouro musical nas trilhas dos Video Games. Muito ao contrário de se empobrecer com as modas musicais do mercado, descobrem sons clássicos onde o Super Mário é apenas aquele que lhes apresenta as delícias de um Mambo Nº5 de Peres Prado. Com vocês, a melhor banda de Vídeo Game Music (VGM) do Brasil: SMASH BROS., é formada por Caio e Julio nas guitarras, Shin no baixo, Bruxo nas baquetas e Bruna nos teclados.


terça-feira, 24 de novembro de 2009

Hipócrates: viver é poder cozinhar, com saúde, é saber temperar




HIPÓCRATES: viver é poder cozinhar, com saúde, é saber temperar






Hipócrates foi o maior representante da Escola de Medicina de Cós (460 a.C.– 377 a.C.).

A escola de Cós se contrapunha à vizinha Escola de Medicina de Cnide que baseava-se na identificação das diferentes doenças e dos diferentes órgãos humanos que podiam adoecer, buscando os tratamentos adequados a cada doença particular e a cada órgão particular (semelhante ao que se pratica na medicina moderna).

A escola de Cós, ao contrário, praticava a medicina que concebia a doença como uma afecção geral do organismo, ou seja, para estes médicos, não existiam “doenças”. Existia apenas o doente e sua evolução particular.

Hipócrates concebia o médico apenas como um auxiliar da natureza. Só a natureza é que podia produzir a cura. Só a “vis medicatrix”, a força curativa da natureza, é que atuava positivamente na evolução do doente e agia no sentido de restabelecer a Eucrasia, a perfeita proporção (acento, crase) entre os quatro "humores", única a cada indivíduo, que proporciona o estado saudável.

Os quatro humores não representam apenas estados imanentes do indivíduo, mas seus fluxos internos e entre seu corpo e seu ambiente. Em todos os momentos, estão “entrando e saindo” do corpo sons, calores, frios, ventos, águas, comidas e excreções. O corpo, em todos os momentos, está em alguma forma de exercício ou repouso.

Assim, os elementos quentes e secos, correspondendo ao Fogo, produziam fluxos de bílis amarela (o humor colérico); os elementos quentes e úmidos, correspondendo ao Ar, produziam fluxos de sangue (o humor sangüíneo); os elementos frios e úmidos, correspondendo à Água, produziam fluxos de fleuma (o humor fleumático); os elementos frios e secos, correspondendo à Terra, produziam fluxos de bílis negra (o humor melancólico).

A Discrasia, ou o excesso humoral, significava tanto a concentração, o acúmulo de um determinado humor numa parte do corpo, como a falta desse mesmo humor em outra determinada parte do corpo, causando dor e doença.

A força vital é, para Hipócrates, um “calor interno inato” de cada indivíduo. Esse calor interno inato é o único capaz de “cozer, cozinhar” os humores “crus”. O acúmulo humoral produzia doença por que o corpo sofre com a presença de um humor no seu estado puro, bruto, cru. A saúde, na concepção hipocrática, é a capacidade contínua do corpo de “temperar” os humores crus e eliminar os excessos humorais. Os humores também são chamados “temperamentos”.

A ação do médico, portanto, dependia de sua capacidade de identificar, pela observação minuciosa do comportamento global do indivíduo, de sua hereditariedade e de seu meio ambiente, qual era a evolução da doença, antecipando as terapêuticas adequadas para auxiliar a força curativa natural a restabelecer as condições saudáveis.

Hipócrates identificava três fases ou estágios típicos da evolução da doença: a fase da Crueza (Apepsia) onde se manifestavam os sintomas dos excessos humorais; a fase da Cocção (Pepsis) onde se manifestava a capacidade do corpo de “cozer, temperar” os excessos humorais e a fase da Terminação (Crisis) onde se manifestava a resolução do excesso humoral pela cura (com sua eliminação bem sucedida pelo corpo), pela apóstase (com sua transferência para outra parte do corpo mais capacitada a um novo processo de Cocção), pela lise (com a dissolução gradual do excesso humoral) ou pela morte (que era concebida como a interrupção/paralização da Cocção, a perda definitiva do “calor interno inato”).

A terapêutica hipocrática, baseada no acompanhamento minucioso da evolução da doença e no princípio do "primum non nocere", primeiro não prejudicar, buscava auxiliar a força curativa natural dando a cada coisa pelo seu contrário” (a fome se cura comendo, a sede bebendo, a fadiga pelo repouso, etc.). Seu arsenal terapêutico fazia uso de caldos e papas, em geral de cevada, mel (também na forma de hidromel, mistura de mel e água, ou oximel, mistura de mel e vinagre), diferentes tipos de vinhos e plantas medicinais (chás), purgativos, ungüentos, sangrias, banhos, exercícios e repousos. Na medicina hipocrática Dieta significava terapêutica onde eram indistinguíveis remédios, alimentos, exercícios e repousos.

A terapêutica não envolvia apenas o doente, mas suas relações com a sociedade e seu meio ambiente. Hipócrates foi o primeiro a caracterizar claramente as Epidemias (título de um de seus livros) como processos de doenças que envolvem a sociedade e o meio ambiente.

No entanto, a principal arte do médico era o correto prognóstico da evolução da doença, que dependia da observação do comportamento global do doente, principalmente para a antecipação dos dias críticos (dos dias em que ocorreria a fase de Crisis) pois era também a aplicação no momento adequado da evolução da doença que garantia a eficácia do tratamento.

Hipócrates e a escola de Cós, desenvolveram um forte sentido ético do exercício da medicina, reagindo contra os diversos tipos de aproveitadores e charlatões.

No seu famoso Juramento, o médico obriga-se a manifestar gratidão aos que lhe ensinaram sua arte, compromete-se a usá-la, unicamente e sem nenhuma exceção, em benefício dos pacientes, obriga-se a conservar puras sua vida e sua arte e a não revelar os segredos que lhe forem revelados em virtude de sua profissão.

Um de seus Aforismos aponta para a humildade da disposição intelectual do médico:
“A vida é curta, a arte é longa, a oportunidade é fugaz, a experiência é enganosa, o julgamento é difícil.”


Os médicos modernos, juram por Hipócrates, da Escola de Cós, mas praticam pela Escola de Cnide.

Fonte: TAVARES DE SOUZA, A. Curso de História da Medicina: das origens aos fins do séc. XVI. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1981. pp.48-67.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Retrofoguetes - Maldito Mambo!

Retrofoguetes - Maldito Mambo!

Já imaginaram uma banda formada por roqueiros baianos com umas guitarras superenfezadas e que toca uma mistura de música do Circo Espacial de Moscou com trilha de filme de ficção científica e Chá Chá Chá (título do último CD dos caras). Eles são o Retrofoguetes, com faixas com títulos como: "As concubinas mecânicas do Dr. Karzov", "Vênus Cassino", "Monga, meu Amor", "Fuzz Manchú"! Recomendo a qualquer hora, mas é delicioso para aquecer uma festinha. Os amantes da música caribenha perdoem o título. É que depois de ouvir, esse Mambo não sai mais da cabeça!




terça-feira, 17 de novembro de 2009

Diálogo com um ovo falante em cima do muro



Diálogo com um ovo falante em cima do muro



– Quando Eu uso uma palavra – disse Humpty Dumpty em um tom de escarninho – ela significa exatamente aquilo que eu quero que signifique ... nem mais nem menos.

– A questão – ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas tão diferentes.

– A questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso.


Através do espelho e o que Alice encontrou lá.

Lewis Carroll

(com ajuda do sociólogo-comediante FHC)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Adeus a Seo Carlinhos, Brother in Arms!



Adeus a Seo Carlinhos, Brother in Arms!






Hoje a terra ficou mais triste e no céu, com certeza, rolará uma bela Jam Session de boas vindas a Seo Carlinhos (Carlo Alberto de Paula), operário da guitarra, multi-instrumentista, ouvido absoluto, mestre pelo exemplo, amante fiel do bom e velho Rock, pai da Bruna (guitarrista da Children of Rock'n'Roll e tecladista da SmashBross) e do baixista André. Aqui nossa homenagem com uma banda que Seu Carlinhos adorava e interpretava como ninguém, Dire Straits.



quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O pesadelo da criação






O pesadelo da criação


O maior medo de um palhaço

é, de repente, descobrir

ter sido apenas um artista.


O maior medo de um artista

é, de repente, descobrir

ter sido apenas um sábio.


O maior medo de um sábio

é, de repente, descobrir

ter sido apenas um palhaço.


O maior medo de Deus

é, eternamente, descobrir-Se

apenas humano.



Poemeto inspirado em Arthur Koestler – The Act of Creation

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Grossery Store Wars

Grossery Store Wars

O mercado orgânico atualmente encontra-se totalmente incorporado por grandes multinacionais de alimentos e grandes redes de supermercados, significando pouco mais que um nicho capitalista bem sucedido para consumidores de faixas de renda elevada. Na sua antiga fase mais militante, porém, não deixou de produzir algumas divertidas campanhas contra as Frankenfoods.

Você decide o que você põe na boca?

Você decide o que você põe na boca?

Então pense nisso:


  • 77,2% das peças publicitárias de alimentos são direcionadas a crianças de menos de 12 anos que não conseguem diferenciar entre a peça publicitária e o filme de entretenimento

  • 70% das crianças de 3 anos reconhecem o símbolo do McDonald´s, mas apenas metade sabe seu sobrenome. (Fonte: Commercialisation of Childhood - Compass, Reino Unido, dezembro de 2006)

  • As cinco categorias de alimentos mais anunciados são: fast foods (21,3%); doces e sorvetes (19,2%); salgadinhos de pacote (16,4%); bolos e biscoitos doces (11,8%); refrigerantes e sucos artificiais (9,8%)


4 horas, 50 minutos e 11 segundos

  • É o tempo médio diário que a criança brasileira assiste TV (Fonte: Painel Nacional de Televisores (IBOPE/2007) – crianças entre 4 e 11 anos, classe ABC)



  • O que você deveria comer, segundo a recomendação do USDA, 1996:


  • O que a publicidade diz para você comer, (proporção dos gastos em publicidade de alimentos) segundo estudo de Kantor, 1998*:

  • O que você come de verdade, segundo estudo de Kantor, 1998:

Notou alguma semelhança entre as duas últimas pirâmides?

  • De acordo com o Ministério da Saúde, os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com as doenças crônicas não transmissíveis (obesidade, diabetes, etc.) totalizam 69% dos gastos com atenção à saúde (Brasil, 2005)

  • Quantas horas de TV você via por dia antes dos 12 anos? Sua mãe trabalhava?

E aí, é você quem decide o que você põe na boca?

*KANTOR, L. S. A dietary assessment of the U.S. food suply: comparing per capita food consumption with food guide pyramid serving recommendations. [S.l.]: Food and Rural Economics Division, Economic Research Service, U.S. Department of Agriculture, 1998. (Agricultural Report. n. 772).

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Chingon - El Alacrán y el Pistolero



Chingon - El Alacrán y el Pistolero

Com música do "Chingon", os reis do mexican spaghetti western, um autêntico curta mexicano.


domingo, 18 de outubro de 2009

O escorpião de Numância



A data de 16 de outubro come-mora o Dia Mundial da Alimentação. Assim, já atrasado, este blog se incorpora às come-morações com este trecho desta peça teatral de Renata Pallottini e uma frase de uma criança-filósofa:



O Escorpião de Numância

Primeiro Ato

Ouve-se dentro [das muralhas] um grande alarido com vozes lamentosas.

TEÓGENES (chefe de Numância) – Que é isso?

MARQUINO (mensageiro numantino) – É a fome, capitão.

TEÓGENES – Fome, fome... Esta gente não sabe pensar em outra coisa?

MARQUINO – Quando se come é fácil pensar em outra coisa.

TEÓGENES – Que é que você quer dizer?

MARQUINO – Que quando se come é fácil pensar em outra coisa.

Os dois se entreolham e Teógenes estende a mão para um saco de provisões que estava ao seu lado, no chão.


(RENATA PALLOTTINI, Teatro Completo. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006)




¨Quem tem fome come até pensamento¨


LUCIANA MALINETTI, 10 anos, Escola Sesi 265 de Santo André-SP.

(Frase premiada em primeiro lugar em novembro de 2001 num concurso sobre a questão da fome).

The Dresden Dolls - My Alcoholic Friends


The Dresden Dolls - My Alcoholic Friends

Como anuncio um período de jejum etílico, necessário à preparação para avançar novos graus no caminho da verdade espiritual (espírito = álcool), isto é, do êxtase no "pé na jaca", homenageio aqui meus/minhas amad@s alcoólic@s irm@s e amig@s, esperando contar com sua compreensão, com essa dupla fantástica do punk brechtiano que não desperdiçou suas aulas de música. (para centralizar a exibição, clique o botão direito do mouse e "mostrar tudo")




o prof Davi Arrigucci Jr comenta Uma brincadeira


O prof. Davi Arrigucci Jr. comenta "Uma brincadeira irresponsável com Jorge Luis Borges: mensagem (de)cifrada em Del rigor en la ciencia)"



"Olá, strl:

Não conheço nenhum estudo específico sobre esse texto notável, que Borges às vezes atribui também ao filósofo inglês Josiah Royce, como comentei em O escorpião encalacrado, ao tratar da questão da obra de arte inserida na própria ficção.

O suposto autor, Suárez Miranda, ao que parece não existe, mas foi tratado como um autor barroco (conforme a data e o uso das maiúsculas característico de certa tradição tipográfica clássica, combinando com a ênfase daquele estilo).

A cidade e a data parecem uma alusão ao teórico do barroco Baltasar Gracián, que lá morreu naquele ano.

O nome Suárez Miranda lembra o do heterônimo Suárez Lynch (como H. Bustos Domecq), que Borges inventou com Bioy Casares na década de 30.

O texto foi publicado pela primeira vez em 1946 numa seção, já denominada "Museo", da revista Los anales de Buenos Aires e foi incorporado depois na Historia universal de la infamia, em 1954, além de ser incluído por Borges/Bioy na antologia de Cuentos breves y extraordinarios, antes de fazer parte de El Hacedor.

A própria recorrência demonstra a importância que o verdadeiro (?) autor atribuía a ele, cujas implicações podem ser lidas em vários planos, como sugerem os jogos que você mesmo inventou.

Abraço cordial,
Davi Arrigucci Jr."


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Fórmula para não andar de cabeça para baixo e não comer excrementos no reino dos mortos










Fórmula para não andar de cabeça para baixo e não comer excrementos no reino dos mortos

A estética egípcia geralmente propicia uma sensação estranha de contemplar uma unidade entre o sofisticado e o rude.

Essa compilação de três Fórmulas dos ritos fúnebres do Livro dos Mortos do Antigo Egito mostra um exemplo da preocupação egípcia com a comida na vida pós-morte e dessa maravilhosa beleza doce e suja.

(Será que nossa moderna alimentação fast-food é uma maldição egípcia que nos condenou a andar de cabeça para baixo e comer excrementos?)




Palavras ditas por N. (o morto):

A minha abominação é a minha abominação!

Eu não comerei o que é a minha abominação.

Eu não comerei excrementos, eu não beberei urina, eu não andarei de cabeça para baixo.
Eles não descerão no meu ventre, eu não lhes tocarei com minhas mãos e não caminharei sobre eles com minhas sandálias.

Eu viverei destas sete porções, de que três são trazidas por Hórus e quatro por Tot.
Eu comerei debaixo deste sicômoro de Hathor, a minha senhora, e darei os restos às suas dançarinas-músicas.

Os meus campos foram-me concedidos em Busíris e os meus pomares em Heliópolis;
Pois eu vivo de pães de fermento branco e a minha cerveja é de cevada vermelha;
E isto deram-me os meus pais, o meu pai e a minha mãe.

Eu sou possuidor de porções alimentares em Heliópolis: as minhas porções estão no céu
junto de Ré, as minhas porções estão na terra junto de Geb;

São as barcas da noite e do dia que mas trazem da morada do grande deus em Heliópolis e eu deleito meus intestinos quando entro na barca do céu e navego do Ocidente para o Oriente.

Eu como daquilo que eles comem,
eu vivo daquilo que eles vivem;

Eu comi os pães no quarto do senhor das oferendas.

LIVRO DOS MORTOS DO ANTIGO EGITO
caps. 51-53

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Stone Roses - Sugar Spun Sister




Stone Roses - Sugar Spun Sister


Para as tardes frias e chuvosas, chá às 5:00 e o rock açucarado na dose certa desses inglesinhos.


quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Sansão: um enigma doce e sujo







Sansão: um enigma doce e sujo

Sansão parece ser o herói bíblico mais estúpido, violento, bandido e pecaminoso que existe. "Nazireu", isto é, dedicado a Deus desde o nascimento (por isso não podia cortar os cabelos), abençoado com uma força muscular excepcional e eleito Juiz de seu povo, parece buscar a ascensão social traindo sua gente casando-se ou apaixonando-se por mulheres dos opressores filisteus.

Ao perder a aposta de um enigma que propôs aos parentes de sua noiva filistéia na festa de casamento, mata 30 pessoas inocentes (de uma cidade costeira a vários kilômetros de distância) apenas para lhes roubar as vestes de festa e pagar sua aposta. Sansão é também o mais atrapalhado herói militar dos hebreus. Suas ações militares são lutas individuais de guerrilha, descoordenadas de uma luta geral do povo hebreu, que, inclusive, põe em perigo o principal aliado desta luta, a numerosa tribo de Judá que é obrigada a entregá-lo atado aos filisteus para evitar um massacre. No auge de seu poder guerrilheiro, após derrotar milhares de soldados filisteus, entrega-se a uma mulher (Dalila) e é humilhantemente cegado e aprisionado. Foi o primeiro modelo ( judeu) de "homem-bomba" ao derrubar o templo sobre si e uma multidão de filisteus.

Essa curiosa figura de herói bíblico é, no entanto, o formulador da mais interessante e lendária reflexão sobre o doce da antigüidade, ainda hoje não explorada em toda sua riqueza: o enigma proposto por Sansão aos parentes da noiva era solucionado pela imagem do mel tirado de dentro da carcaça de um leão morto.

“Do que come saiu comida, do forte saiu doçura” era a charada do desafio de Sansão.

Sansão tinha certeza que os filisteus nunca decifrariam o enigma, pois sua chave política e religiosa, além de ser inconcebível para a cultura filistéia que abraçou por completo a religião caananita anterior, era ainda apenas um projeto secreto de um "escolhido por Deus para iniciar a libertação do povo hebreu". O projeto era tão secreto que a idéia de "povo hebreu" ainda não existia (hebreus = 'apirus foi um nome cunhado pelos filisteus para informar ao centro do império egípcio rebeliões de marginais foras-da-lei nas "Cartas de Amarna"; a tribo de Sansão, , sempre foi composta de camponeses pastores caananeus e nunca esteve no cativeiro do Egito) e também ainda não existia o monoteísmo javista. Yahweh era apenas mais um dentre os muitos deuses das tribos caananitas.

Deus é chamado por Sansão tanto pelo nome de El, de Elohim como de Yahweh. Ou seja, na época de Sansão, ou quando essa estória ganhou forma na mente do povo caananeu, a futura religião Javista (Yahweh / Israel) ainda não tinha se separado das suas raízes na religião antiga caananita, onde El/Elohim não era o Deus único e sozinho, mas apenas o Pai-de-todos da grande família divina caananita, cujos filhos jovens eram o belo e musculoso Baal (deus da chuva e da fertilidade) e a bela e sensual Anat (deusa do amor e da guerra) que era representada nua e de pé sobre as costas de um leão.

Sendo herói de um povo de camponeses pastores caananeus oprimidos por invasores filisteus que assumiram a religião caananita, Sansão referiu-se ao leão como símbolo da exploração que os filisteus exerciam sobre os camponeses pastores. O leão é um animal que mata algumas ovelhas e cabras desses pastores, do mesmo modo que os abusivos impostos cobrados pelos filisteus também "matam" algumas de suas ovelhas e cabras. O leão não podia ser combatido individualmente pelo camponês pastor, só podia ser caçado e morto com uma grande organização de toda tribo ameaçada.

Somente uma aliança de muitas tribos caananitas poderia derrotar o formidável poderio militar e tecnológico dos filisteus (que dominavam a novíssima tecnologia do ferro e das flechas e bigas velozes). Uma aliança de pequenas e fracas tribos de camponeses pastores, isto é, "abelhinhas", que sozinhas são facilmente esmagadas, mas juntas num "enxame" poderiam matar um leão a ferroadas e construir uma colméia no oco de seu cadáver. Nessa colméia poderiam juntas produzir o mel e experimentar a abundante doçura da harmonia laboriosa da vida comunitária. Somente um novo Deus, único e sozinho, poderia conduzir à vitória essa aliança de pequenas tribos contra um opressor tão forte e fazer correr na terra rios de leite e mel.



“Do que come saiu comida, do forte saiu doçura”


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Dirty Sweet



Dirty Sweet - Marionette

Abrindo a ala musical deste blog, essa banda de San Diego, California, que toca um excelente rock totalmente Old Fashioned que, além de inspirar-se no Southern Rock vai buscar as trilhas dos Spaghetti Westerns! Os atores do clip são os membros da banda. Com esse nome, não sei porque ainda não estouraram! (para centralizar a exibição, clique o botão direito do mouse e "mostrar tudo")


quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Política, Religião e Irrigação



Política, Religião e Irrigação


A luta pela terra e pela água sempre esteve próxima da política e da religião, mesmo quando não havia separação entre política e religião.

No Egito Antigo, um bando de biscateiros marginais, foras-da-lei, conhecidos como 'apiru (Hebreus), um povo "muito misturado", brigou com o Rei (o Faraó) e partiu em busca de uma terra prometida onde corriam rios de leite e mel.

Os Deuses do Faraó formavam também uma família divina, pois se o Faraó era o próprio Deus na terra, então, o filho do Faraó, o pai, a mãe, etc. também tinham que ser Deuses (menores, é claro). O Faraó era Deus de verdade, pois comandava a distribuição das terras e, principalmente, das águas.

O povo 'apiru era formado pelos mais pobres dos pastores camponeses e migrantes que viviam longe das férteis margens do Nilo (como se vê na foto acima), onde viviam os ricos, e onde o Deus Geb (Terra) era sempre fecundado pela Deusa Nut (Céu).

Os 'apiru, por sua vez, dependiam inteiramente do bom funcionamento da burocracia egípicia, incluindo astrônomos, matemáticos, topógrafos e engenheiros construtores, além do pessoal que supervisionava e fazia manutenção das redes de canais de irrigação. Se o Faraó acordava de bronca e mandava o funcionário fechar a comporta de tal canal, lá se ia toda uma população de várias aldeiazinhas de pastores a migrar por causa da fome e procurar biscates nas cidades. O chefe do Estado era divino pois tinha poder de vida ou morte tanto sobre a natureza como sobre as pessoas.

Os 'apiru lutaram por uma terra onde a água vinha lá do Céu direto de Deus para cada um, sem intermediários, uma terra em que chovesse tanto que a vegetação florescesse e produzisse árvores altas em cujos velhos troncos ocos pudessem abrigar-se muitas colméias de abelhas melíferas. Uma terra que chovesse tanto que os pastos verdejassem por muito tempo fazendo as cabras e ovelhas procriarem e darem leite de sobra. Uma terra onde corressem rios de leite e mel.

Na caminhada da luta até essa terra prometida, doce e chuvosa descobriram que não precisavam mais de Rei e inventaram um governo composto de uma assembléia de representantes de suas diversas tribos. Como inventaram um governo sem Reis, descobriram que Deus não precisava ter família, nem mãe, nem pai, nem mulher, nem uma corte de Deuses menores, nem mesmo filho.

Esse Deus que manda a chuva direto sobre todos, era único e sozinho. Diferente de outros "Deuses da chuva" da época, esse Deus único não tinha templo, para ele não adiantava rezar para chover. Além disso, esse Deus único e sozinho podia mandar dois tipos básicos de chuva:

(O hebraico bíblico registrou duas palavras para as chuvas mandadas por esse Deus)

era a chuva mansa que Deus manda para renovar a vida e


era a chuva-dilúvio que Deus manda para castigar a humanidade.

Estranhamente, para esse Deus "manda-chuva" único e sozinho, era a obediência do povo à Lei que constituiu a assembléia do governo do povo que contava para a benção da chuva boa ou para o castigo da chuva má.

Foram esses pastores-camponeses migrantes foras-da-lei 'apiru que inventaram e descobriram todas essas maravilhas que muito tempo depois ainda significam novidade em nossa civilização.

Existiram entre eles, é verdade, sérias divergências culinárias:

4A turba que estava no meio deles foi tomada de cobiça. Os próprios filhos de Israel se puseram a chorar e a dizer: “Quem nos dará carne para comer? 5Lembramo-nos do peixe que comíamos por nada no Egito, dos pepinos, dos melões, das verduras, das cebolas e dos alhos! 6Agora estamos definhando, privados de tudo; nossos olhos nada vêem senão este maná!” 18[...]“Éramos felizes no Egito!” 20[...]“Por que, pois, saímos do Egito?”

(A Bíblia de Jerusalém - Livro dos Números 11, 4-6; 18; 20)