segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Dirty Sweet



Dirty Sweet - Marionette

Abrindo a ala musical deste blog, essa banda de San Diego, California, que toca um excelente rock totalmente Old Fashioned que, além de inspirar-se no Southern Rock vai buscar as trilhas dos Spaghetti Westerns! Os atores do clip são os membros da banda. Com esse nome, não sei porque ainda não estouraram! (para centralizar a exibição, clique o botão direito do mouse e "mostrar tudo")


quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Política, Religião e Irrigação



Política, Religião e Irrigação


A luta pela terra e pela água sempre esteve próxima da política e da religião, mesmo quando não havia separação entre política e religião.

No Egito Antigo, um bando de biscateiros marginais, foras-da-lei, conhecidos como 'apiru (Hebreus), um povo "muito misturado", brigou com o Rei (o Faraó) e partiu em busca de uma terra prometida onde corriam rios de leite e mel.

Os Deuses do Faraó formavam também uma família divina, pois se o Faraó era o próprio Deus na terra, então, o filho do Faraó, o pai, a mãe, etc. também tinham que ser Deuses (menores, é claro). O Faraó era Deus de verdade, pois comandava a distribuição das terras e, principalmente, das águas.

O povo 'apiru era formado pelos mais pobres dos pastores camponeses e migrantes que viviam longe das férteis margens do Nilo (como se vê na foto acima), onde viviam os ricos, e onde o Deus Geb (Terra) era sempre fecundado pela Deusa Nut (Céu).

Os 'apiru, por sua vez, dependiam inteiramente do bom funcionamento da burocracia egípicia, incluindo astrônomos, matemáticos, topógrafos e engenheiros construtores, além do pessoal que supervisionava e fazia manutenção das redes de canais de irrigação. Se o Faraó acordava de bronca e mandava o funcionário fechar a comporta de tal canal, lá se ia toda uma população de várias aldeiazinhas de pastores a migrar por causa da fome e procurar biscates nas cidades. O chefe do Estado era divino pois tinha poder de vida ou morte tanto sobre a natureza como sobre as pessoas.

Os 'apiru lutaram por uma terra onde a água vinha lá do Céu direto de Deus para cada um, sem intermediários, uma terra em que chovesse tanto que a vegetação florescesse e produzisse árvores altas em cujos velhos troncos ocos pudessem abrigar-se muitas colméias de abelhas melíferas. Uma terra que chovesse tanto que os pastos verdejassem por muito tempo fazendo as cabras e ovelhas procriarem e darem leite de sobra. Uma terra onde corressem rios de leite e mel.

Na caminhada da luta até essa terra prometida, doce e chuvosa descobriram que não precisavam mais de Rei e inventaram um governo composto de uma assembléia de representantes de suas diversas tribos. Como inventaram um governo sem Reis, descobriram que Deus não precisava ter família, nem mãe, nem pai, nem mulher, nem uma corte de Deuses menores, nem mesmo filho.

Esse Deus que manda a chuva direto sobre todos, era único e sozinho. Diferente de outros "Deuses da chuva" da época, esse Deus único não tinha templo, para ele não adiantava rezar para chover. Além disso, esse Deus único e sozinho podia mandar dois tipos básicos de chuva:

(O hebraico bíblico registrou duas palavras para as chuvas mandadas por esse Deus)

era a chuva mansa que Deus manda para renovar a vida e


era a chuva-dilúvio que Deus manda para castigar a humanidade.

Estranhamente, para esse Deus "manda-chuva" único e sozinho, era a obediência do povo à Lei que constituiu a assembléia do governo do povo que contava para a benção da chuva boa ou para o castigo da chuva má.

Foram esses pastores-camponeses migrantes foras-da-lei 'apiru que inventaram e descobriram todas essas maravilhas que muito tempo depois ainda significam novidade em nossa civilização.

Existiram entre eles, é verdade, sérias divergências culinárias:

4A turba que estava no meio deles foi tomada de cobiça. Os próprios filhos de Israel se puseram a chorar e a dizer: “Quem nos dará carne para comer? 5Lembramo-nos do peixe que comíamos por nada no Egito, dos pepinos, dos melões, das verduras, das cebolas e dos alhos! 6Agora estamos definhando, privados de tudo; nossos olhos nada vêem senão este maná!” 18[...]“Éramos felizes no Egito!” 20[...]“Por que, pois, saímos do Egito?”

(A Bíblia de Jerusalém - Livro dos Números 11, 4-6; 18; 20)

sábado, 5 de setembro de 2009

Del rigor en la ciencia


Uma brincadeira irresponsável
com Jorge Luis Borges:
mensagem (de)cifrada em
“Del rigor en la ciencia”


Del rigor en la ciencia
... En aquel imperio, el Arte de la Cartografía logró tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa del Imperio, toda una Provincia. Con el tiempo, esos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él. Menos Adictas al Estudio de la Cartografía, las Generaciones Siguientes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin Impiedad lo entregaron a las Inclemencias del Sol y de los Inviernos. En los desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruinas del Mapa, habitadas por Animales y por Mendigos; en todo el País no hay otra reliquia de las Disciplinas Geográficas.
SUÁREZ MIRANDA: Viajes de Varones prudentes,
libro cuarto, cap. XIV, Lérida, 1658.


Não tenho problema em confessar minha condição de ignorante neófito na leitura de Jorge Luis Borges, embora me persiga uma estranha sensação de intimidade quem sabe desfrutada em outras vidas.
Creio, no entanto, ser capaz de apreciar sua crítica mordaz e irônica ao que de melhor produziu a alta cultura dos centros da civilização ocidental: sua ciência e sua filosofia, irmãs mais novas da sua velha raiz judaico-cristã.
Minha convivência com engenheiros agrônomos, topógrafos e cartógrafos, e principalmente com os praticantes da versão mais radical de mistificação científica, a “ciência econômica”, me atraíram desde cedo para esse texto de Borges – Del rigor en la ciencia – que ficou-me gravado na memória, além da ironia, pela inusitada utilização de algumas letras maiúsculas, aparentemente a destacar certas palavras ou expressões como se fossem títulos.
Somente por um irresistível chamado de regiões telúricas, ouso essa brincadeira irresponsável com Jorge Luis Borges que adorava livros e bibliotecas e conhecia métodos de catalogação já esquecidos.
Usei o mais primitivo, os sinais que se organizam em sons, palavras e línguas que civilizações antigas misteriosamente ordenaram e que se acha em todas as bibliotecas: a ordem alfabética.
Tomei cada palavra como se fosse o título de um livro e fui colocando-os em seu lugar em cada prateleira de minha estante na ordem em que aparecem no texto:



A
C
D
E
aquel
Ciencia
Desmesurados
Estudio
Arte
Cartografía
dilatado
entendieron
Adictas
Ciudad
Desiertos
entregaram
Animales
Colegios
de Cartógrafos
despedazadas
coincidía
Disciplinas
G
H
I
L
Generaciones
habitadas
Imperio
logró
Geográficas
hay
Inútil
levantaron
Impiedad
Inclemencias
Inviernos
M
O
P
Mapa
ocupaba
Perfección
Menos
Oeste
Provincia
Mendigos
otra
puntualmente
perduram
País
R
S
T
Rigor
sola
tal
Ruinas
satisficieron
toda
reliquia
Seguientes
tenía
sin
tiempo
Sol
tamaño


Des-cifrando minha estante, cada cifra-prateleira contou uma oração de um novo texto de Borges.
Sim, pois nesse novo texto, se reconhece Borges em cada letra, só que potencializado, mais crítico ainda, mais mordaz, mais claro e feroz contra uma ciência estupidamente vinculada a um poder irracional, mas, também mais esperançoso, mais orgulhoso de nossa profunda sabedoria "mendicante" latino-americana, capaz de construir sobre os escombros irracionais da civilização ocidental um novo caminho, de traçar um novo mapa, mesmo sem ver o sol, para um outro oeste.





“Una Viaje de un Varón Prudente”
A aquella Arte eran Adictos Animales.
En los Colegios de Cartógrafos, la Ciencia coincidía con la Ciudad.
En los desmesurados Desiertos, dilatadas Disciplinas fueron despedazadas.
Al Estudio entendieran se entregar,
las Generaciones Geográficas
que los habían habitado.
Fue ese Imperio Inútil de la Impiedad que empezó las Inclemencias de los Inviernos.
Lograran levantar, aunque
por lo menos un Mapa, los Mendigos,
Y ocuparan el Oeste que se hizo otro.
Con Perfección, en su Provincia puntualmente perduran su País.
Del Rigor, restaron Ruinas y Reliquias.
Solos, se satisficieron y siguieron, aunque sin Sol.
Tal es que tienen todo el tiempo y el tamaño.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O doce, o salgado e a linguagem do amor






O antropólogo Sidney Mintz (esse simpático velhinho aí da foto) talvez seja o maior estudioso da doçura no mundo moderno. Num artigo memorável cujo título foi roubado por esta postagem ele começa estabelecendo semelhanças e diferenças entre sal e açúcar, entre doce e salgado.


Sal e açúcar são as duas substâncias quimicamente puras que são consumidas pelos humanos, ambos se apresentam na forma refinada como uma areia cristalina. Ambos são essenciais aos processos vitais que interrelacionam humanos, animais, vegetais e o reino mineral. Ambos são objetos de intresses de governos como bens que podem ser taxados e controlar o trabalho humano. Veja-se, por exemplo, na Roma Antiga a origem da palavra "salário" usando o sal como moeda e a relação da escravidão moderna com a produção de açúcar no Novo Mundo para abastecer de calorias baratas o nascente proletariado industrial.


No entanto, o sal é mineral, consumido nessa forma e como presente na carne por animais e homens desde tempos imemoriais, é visto pelos humanos que o consomem como item de necessidade básica, mas apresenta um claro limite individual para a quantidade que alguém agüenta consumí-lo.


O açúcar, ao contrário, é resultado de processos orgânicos, só largamente consumido recentemente na história humana com a emergência da civilização ocidental moderna, é do ponto de vista nutricional e também cultural visto como absolutamente dispensável e desnecessário mas não parece haver limites individuais para a quantidade que alguém consegue consumir de açúcar.


O mel era o "açúcar" dos antigos. Na linguagem do amor (e também como principal adoçante consumido), o mel foi por muito tempo o rei. Veja-se as expressões 'lua de mel", "beijo melado", "lábios de mel", etc. Sidney Mintz nota que na língua inglesa esses expressões baseadas no mel ficaram pra trás e foram substituídas por outras que parecem ter por base a democratização do consumo de açúcar, tais como, "sugar", "sugar pie", "sweetie", "sweetheart", "sugar daddy" e outras mais eróticas como "jelly roll".


Mintz também nota que a experiência sensorial do doce traz evidentes lembranças de um prazer egoístico e quase sexual, embora toda nossa experiência sexual seja relacionada muito mais com o salgado. Nossas lágrimas são salgadas, nosso suor é salgado, nosso sangue é salgado, nem é preciso falar do sabor do esperma ou dos fluidos vaginais. Em resumo, sexo é salgado!


Há um único fluido humano que podemos experimentar como doce: o leite materno. Doce é nossa lembrança do momento em que cumprimos nosso destino de mamíferos. Doce é a sensação que nos recorda do seio materno. É pela via do leite materno que o doce entrou na linguagem do amor.


No entanto, lembra Mintz, essa história é mais complicada, pois parece haver uma concentração cultural específica em relação ao doce na linguagem do amor. Forte na Inglaterra e em países de cultura anglo-saxã. Na China e na França, por exemplo, essa ligação do doce com o amor parece ser muito mais fraca, correspondendo também a um consumo muito menor de açúcar, cuja explicação ainda carece de resposta pela antropologia.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Sujo como Nietzsche



O filósofo mais bigodudo da história também falava de uma "Filosofia da Manhã". Em um dos seus textos chamado justamente "Aurora" (lembram-se de Jakob Böehme?) defende que toda moral provém dos instintos e atos animais, de como nos alimentamos.

"§ 26

Os animais e a moral – As práticas que são exigidas na sociedade refinada, o evitar cuidadosamente o ridículo, o que dá na vista, o pretencioso, o preferir suas virtudes assim como seus desejos mais veementes, o fazer-se igual, pôr-se na ordem, diminuir-se – tudo isso, como moral social, se encontra, a grosso modo, por toda parte até o mais profundo do mundo animal – e somente nessa profundeza vemos o propósito que está por trás de todas essas amáveis precauções: quer-se escapar de seus perseguidores e ser favorecido na busca de sua presa. Por isso os animais aprendem a se dominar e disfarçar de tal maneira que muitos, por exemplo, adaptam suas cores à cor do ambiente (em virtude da assim chamada "função cromática"), fazem-se de mortos ou adotam formas e cores de um outro animal ou de areia, folhas, algas, esponjas (aquilo que os pesquisadores ingleses designam como mimicry). Assim se oculta o indivíduo sob a generalidade do conceito "homem" ou sob a sociedade, ou se adapta a príncipes, classes, partidos, opiniões do tempo ou do ambiente: e para todos os refinados modos de nos fazermos de felizes, gratos, poderosos, amados, se encontrará facilmente o equivalente animal. Também aquele sentido de verdade, que no fundo é o sentido de segurança, o homem tem em comum com o animal: não quer deixar-se enganar, não quer deixar-se induzir em erro por si próprio, ouve com desconfiança a voz persuasiva de suas próprias paixões, reprime-se e permanece em guarda contra si; isso tudo o animal sabe igual ao homem, também nele o autodomínio brota do sentido do efetivo (da prudência). Ele observa, igualmente, os efeitos que exerce sobre a representação de outros animais, aprende a voltar o olhar sobre si mesmo a partir dali, a se tomar "objetivamente", tem seu grau de autoconhecimento. O animal julga os movimentos de seus adversários e amigos, aprende de cor suas peculiaridades, orienta-se por elas: contra indivíduos de uma espécie determinada ele renuncia de uma vez por todas ao combate e, do mesmo modo, adivinha na aproximação de muitas espécies animais o propósito de paz e acordo. Os inícios da justiça, assim como os da prudência, comedimento, bravura – em suma, de tudo o que designamos com o nome de virtudes socráticas [o bom, o belo, o verdadeiro], é animal: uma conseqüência daqueles impulsos que ensinam a procurar por alimento e escapar dos inimigos. Se ponderamos agora que também o mais elevado dos homens só se elevou e refinou justamente no modo de sua alimentação e no conceito de tudo aquilo que lhe é hostil, não deixará de ser permitido designar todo o fenômeno moral como animal."

Bom, o doce, desde momentos imemoriais foi constituido como sinalizador de alimentos seguros e saudáveis, o prazer que provoca em nós é um poderoso marcador no mapa cerebral que fomos utilizando para escolher e localizar os alimentos que nos faziam bem e afastar os que nos faziam mal.






Porquê nossa civilização ocidental cristã e capitalista desenvolveu uma especial predileção pelo doce?

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Doce como Böehme




Jakob Böehme era sapateiro em Göerlitz na região da terra que um dia viria se tornar a Alemanha. Assim ele descreve "O Nascimento da Aurora" em 1612:

0. Antes de tudo existia o Sem-Fundo, o antes do nada, o antes do ser e do não-ser, o Ungrund;
1. Esse Sem-Fundo era Deus, quando Ele soube disso ficou contente e quiz conversar com alguém, mas só encontrou a Si mesmo. Esse movimento de Deus atraido por Si mesmo gerou o nada e a escuridão e foi chamado por Böehme de Vontade-Pai e Adstringência (como quando mordemos uma fruta verde e "amarra a boca"), é a primeira energia criativa de todas as coisas;
2. O Sem-Fundo que descobriu-se Deus acumula sua vontade de conversar com alguém num ponto, densifica-se num centro. Esse centro, o sapateiro chamou de Coração-Filho e Amargor, pois ao ver-Se aprisionado em Si mesmo Deus quer escapar de Si e criar o mundo;
3. A adstringência (Deus atraído por Si mesmo) e o amargor (Deus fugindo de Si mesmo) criam um movimento rotatório que Böehme chama de Angústia;
4. Com a aceleração da angústia ocorre o Relâmpago, o Fogo, o Calor que nada mais é que a Liberdade de Deus para criar;
5. Esse calor da liberdade vai temperando a força da adstringência, do amargor e da angústia e desse "cozimento", essas forças tornam-se de contrárias em complementares e se abrandam e se entregam suave e amorosamente umas às outras, a isso Böehme chamou Amor;
6. O surgimento do amor em seu abrandamento das forças severas e contrárias cria um ressoar, uma expansão de Deus que ecoa pelo nada em miríades de reverberações resultantes do estremecimento das forças severas e contrárias e sua conversão em forças brandas e complementares, a isso o sapateiro de Göerlitz chamou de Som ou Tom;
7. Esse som ou tom de Deus vai criando todas as combinações das forças anteriores que dão origem ao Universo, isto é, à Tangibilidade ou Corporalidade.

















Bom, onde entra o Doce?






Como entendo, o Doce em Jakob Böehme se refere tanto ao momento em que Deus transmite sua Vontade-Centelha-Luz à Corporalidade como ao momento, muito posterior da re-Conciliação do Homem e de toda Corporalidade com Deus. Doce é o movimento de Deus que cria o mundo e nós. Doce é o movimento que nós e mundo nos reconciliamos com Deus.
Doce é, segundo Böehme, um prazer calmo, reflexo e escoamento da amenidade, delicioso restaurador da vida, torna tudo agadável, amável e amigável, é um canal da felicidade celeste.

O prazer em si, nosso prazer de hoje (sexual), é diferente, é resultado, segundo Böehme, do Amargo que é um alegre estremecimento que arrebata todo seu coração, pois é reverberação do celeste reino de deleites, uma elevação do espírito.

Jakob Böehme bem pode ser o ponto inicial da criação da civilização ocidental cristã moderna, o último dos teólogos e o primeiro dos filósofos realmente modernos, apesar de ser sapateiro, apesar de parecer um místico, apesar de parecer incompreensível.


Pois bem, como dizia um místico alemão Rudolf Steiner: "uma maior propensão para o doce, para o prazer egoístico, para o consumo de açúcar, é o traço característico da civilização ocidental".